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Setor de transporte de cargas se prepara para o novo ES

 Setor de transporte de cargas se prepara para o novo ES

Transformação logística impulsiona competitividade e infraestrutura estadual

O Espírito Santo vive a expectativa de um salto econômico sem precedentes, com R$ 104,3 bilhões em investimentos previstos até 2031, segundo a Bússola de Investimentos Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes).

Focado no comércio exterior, o território capixaba busca se consolidar como um hub logístico multimodal. São projetados portos com calados para receber supernavios, ampliação de ferrovias, duplicação de rodovias, novos aeroportos, além de outros investimentos em diferentes áreas.

Essa transformação ocorre em paralelo à transição da Reforma Tributária, que prevê o fim gradual dos incentivos fiscais e a mudança da cobrança do imposto para o local onde a mercadoria é consumida (destino). Com isso, o Espírito Santo deixa de competir pela atração tributária e passa a ser cobrado por eficiência logística. Nesse contexto, o transporte rodoviário de cargas é o elo para conectar as fábricas, o campo, os portos e os grandes centros de consumo do Brasil.

A Nova Lógica Fiscal e a Produtividade do Estado

Na nova perspectiva fiscal, a escolha das empresas sobre onde instalar seus centros de distribuição passa a depender da qualidade da infraestrutura, da agilidade nas entregas e da capacidade de reduzir custos logísticos reais.

O Secretário de Estado de Desenvolvimento, Rogério Salume, destaca que a atratividade do Espírito Santo precisa migrar para a eficiência concreta: “Com a Reforma Tributária, a competição entre os Estados tende a migrar cada vez mais da vantagem fiscal para a vantagem de infraestrutura e eficiência. O Espírito Santo está se preparando para esse novo cenário. Temos localização estratégica, investimentos importantes em portos, rodovias e ferrovias, e um ambiente de negócios favorável. Nosso desafio é integrar esses ativos para reduzir custos, aumentar a eficiência e consolidar o Estado como um dos principais hubs logísticos do Brasil”, ressaltou.

Sob a ótica econômica, a logística deixa de ser um mero serviço de passagem de caminhões e passa a atuar como motor de diversificação do Produto Interno Bruto (PIB) capixaba. Felipe Storch, economista-chefe do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (Ibef-ES), explica como a infraestrutura logística tem impacto direto sobre a produtividade das empresas, porque determina quanto tempo, capital e trabalho são necessários para transportar determinada quantidade de mercadorias.

“Para as transportadoras, a melhoria da infraestrutura pode representar mais viagens realizadas com a mesma frota, menor consumo de combustível por unidade transportada, redução de despesas com manutenção e melhor aproveitamento dos veículos. Esses ganhos contribuem para elevar a produtividade e podem melhorar a rentabilidade das operações”, ressalta.

Em sua análise, a principal transformação será a redução gradual do peso das vantagens tributárias e o aumento da importância da produtividade logística como fator de competitividade. “Para o Espírito Santo, isso reforça a necessidade de acelerar a modernização da infraestrutura e melhorar a integração entre portos, rodovias, ferrovias e centros de distribuição”, pontuou.

Frota em Expansão, Custos e a Falta de Mão de Obra

A maior movimentação de produtos reflete no volume de veículos em circulação no Estado. Dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-ES) apontam que o Espírito Santo atingiu a marca de mais de 2,6 milhões de veículos registrados ao final de 2025. Desse total, cerca de 350 mil são caminhões.

Para dar conta da demanda criada pelos novos terminais, as empresas de transporte de cargas estão investindo na expansão e renovação de frotas, assim como em tecnologia, gestão e qualificação profissional, de acordo com Luiz Alberto Teixeira, presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística no Estado do Espírito Santo (Transcares).

Contudo, a compra de novos veículos não resolve o problema por si só se não houver fluidez nas estradas e condições operacionais nas pontas, segundo Teixeira, que explica que a capacidade do setor depende de estrutura e do controle dos custos que pesam sobre as frotas: “Mas é importante lembrar que capacidade de transporte não se constrói apenas com caminhões. A isso se somam custos operacionais elevados, que pressionam diretamente a atividade, como combustível, manutenção, pneus, mão de obra e seguros. Quando o caminhão perde tempo em congestionamentos, acessos inadequados ou operações pouco eficientes, esse custo se multiplica e acaba impactando toda a cadeia”.

Sobre o desafio de formar e reter talentos nas empresas, o presidente do Transcares complementa: “Não é de agora que a falta de profissionais qualificados é uma preocupação para o setor. E importante destacar aqui que não estamos falando apenas de motoristas: a transformação da logística também aumenta a demanda por profissionais preparados para atuar com tecnologia, gestão, manutenção, operação e planejamento”.

Teixeira complementa: “Só que não nos basta formar, precisamos criar condições para reter esses profissionais. Isso passa por valorização, desenvolvimento de carreira, melhoria das condições de trabalho e, no caso dos motoristas, por uma estrutura de apoio adequada nas rodovias”.

Condições das Rodovias e Gargalos de Acesso

A eficiência do transporte esbarra na qualidade da malha rodoviária. De acordo com os dados do Painel da Pesquisa Confederação Nacional dos Transportes (CNT) de Rodovias, 68,5% da extensão rodoviária avaliada no Espírito Santo apresenta classificação de regular a péssima no seu estado geral.

O presidente do Transcares destaca a integração modal: “O setor precisa de planejamento integrado. Não adianta ampliar a capacidade portuária se os acessos terrestres não acompanharem esse crescimento. O Espírito Santo tem uma oportunidade muito grande de se consolidar como um importante corredor logístico, mas isso exige que rodovias, portos, áreas de apoio e segurança avancem de forma coordenada”.

Em resposta, o Governo do Estado lista as intervenções em andamento para liberar os acessos aos polos portuários e industriais: “O Estado vem realizando investimentos na implantação, recuperação e modernização da malha rodoviária estadual, principalmente nas conexões entre terminais portuários e eixos rodoviários. O acesso aos portos de Aracruz é um bom exemplo. Um anel de contorno de Aracruz e a duplicação da ES-257, somada à nova rodovia ES-115, uma terceira via de acesso entre Aracruz e a região industrial de Serra, serão fundamentais para a eficiência daquele complexo”, afirma Salume.

Salume também cita o início de contratação do novo trecho de 120 quilômetros da BR-262, duplicado e parcialmente financiado pelo Governo do Estado. Além disso, a duplicação da BR-101 já soma cerca de 20 quilômetros de pistas entregues desde o início do atual contrato de concessão com a Ecovias Capixaba, assinado em agosto de 2025. Os trechos estão distribuídos entre Serra, Guarapari, Anchieta e Iconha. 

O Triângulo dos Galpões e a Expansão do E-commerce

Para Alexandre Malta, presidente da Associação de Venda Não Presencial do Brasil (AvenpesBR), a expansão do comércio eletrônico está consolidando a Grande Vitória como um dos principais entrepostos de armazenamento e despacho de mercadorias do Estado para o Brasil.

A posição geográfica atrai grandes varejistas digitais. Segundo Malta, o Estado vem construindo essa posição com infraestrutura, equilíbrio fiscal, ambiente de negócios competitivo e atração de empresas de referência. “A Amazon, por exemplo, inaugurou uma operação de fulfillment – conjunto de etapas da logística que vai desde o pedido até a entrega do produto – no Estado, em parceria com a DHL, enquanto a Shopee anunciou um novo centro de distribuição; o Mercado Livre já mantém operações de distribuição no território capixaba.”

Para o presidente da AvenpesBR, a agilidade para atender os grandes centros está sendo construída pela integração de soluções com a infraestrutura do Estado e com uma maior utilização dos modais aéreo e marítimo, conforme o perfil da carga.

“A AvenpesBR também desenvolve estudos com o setor para identificar oportunidades de consolidação de cargas de mesmo perfil e destino. Ao reunir volumes de diferentes empresas, buscamos melhorar a ocupação dos veículos, reduzir custos e ampliar a eficiência logística, respeitando as necessidades de cada operação.”

O Cooperativismo de Cargas e a Conexão com o Interior

Para a transformação do Espírito Santo em hub logístico, o cooperativismo de transporte surge como a ferramenta capaz de dar escala ao caminhoneiro autônomo, permitindo que ele participe das grandes cadeias de escoamento e mantenha a renda gerada nas comunidades locais. 

O Anuário do Cooperativismo Capixaba aponta que o ramo de transporte é o segundo maior em número de cooperativas nesse modelo de negócio no Estado, são 26. Juntas, somam mais de 10,2 mil cooperados e 681 colaboradores. Em 2025, o segmento movimentou R$ 831,9 milhões – um avanço de 29,3% sobre o ano anterior –, transportando 456,8 mil toneladas de cargas sólidas e 35,7 milhões de litros de cargas líquidas.

Andréa Silvério, analista contábil tributária do Sistema da Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado (OCB/ES), explica como o modelo coletivo protege a competitividade do pequeno transportador, já que permite atuação de forma coordenada, compartilhamento de estrutura e mais oportunidades de negócios.

Para Andréa, ao reunir transportadores autônomos em uma estrutura coletiva, são criadas condições para negociação, organização da oferta, acesso a mercados e investimentos que seriam mais difíceis individualmente. “Nesse ambiente, a cooperativa funciona como instrumento para que o transportador autônomo não fique à margem desse processo e possa acessar mercados de maior escala, preservando a natureza empreendedora de sua atividade e garantindo que os benefícios desse crescimento também alcancem os pequenos e médios empreendedores do setor”, afirmou.

Futuro do transporte

Essa integração ganha forma prática no setor cafeeiro com o case da marca Vexgo – que nasceu da junção entre duas cooperativas de Santa Maria de Jetibá: a Nater Coop, com a originação, a armazenagem e a comercialização do café, e a Coopetranserrana, com os motoristas cooperados e a operação de transporte.

Em vez de contratar fretes externos, o modelo garante caminhão disponível para escoar a produção até as indústrias e portos, mantendo o retorno econômico do transporte dentro do próprio sistema cooperativo capixaba. Vale lembrar que o Espírito Santo é o segundo maior produtor de café do Brasil, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e o produto é o principal item da pauta exportadora do agro capixaba.

Marcelino Bellardt, CEO da Nater Coop, destaca como a parceria resolve a logística do produtor rural no campo: “A Vexgo mostra que a intercooperação pode ser um modelo de negócio, e não apenas um princípio. Duas cooperativas somaram o que cada uma faz de melhor para resolver a logística do nosso cooperado”.

A transição fiscal e a chegada dos novos aportes reforçam que o futuro do transporte capixaba dependerá da produtividade real nas estradas, da tecnologia e da integração entre o campo, a indústria e os portos. Felipe Storch, economista-chefe do IBEF-ES, destaca o objetivo final desse ciclo de investimentos para o Estado:

“Em síntese, o Espírito Santo tem condições de se consolidar como um dos principais polos logísticos e industriais do país. Mas precisamos compreender que o objetivo não deve ser apenas aumentar o volume de mercadorias que passam pelo estado. O verdadeiro desenvolvimento acontece quando conseguimos transformar essa movimentação em investimentos produtivos, geração de renda, empregos e ganhos de produtividade para toda a economia capixaba”.

Fonte: ES Brasil 

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