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Brasil utiliza menos da metade da extensão hidroviária prevista para o transporte de cargas, aponta estudo da CNT

Brasil utiliza menos da metade da extensão hidroviária prevista para o transporte de cargas, aponta estudo da CNT

Navegação interior movimentou 91,3 milhões de toneladas em 2025; estudo propõe medidas de infraestrutura, planejamento e governança para ampliar o aproveitamento dos rios brasileiros

O Brasil utiliza economicamente 20,4 mil quilômetros de vias navegáveis interiores para o transporte de cargas, menos da metade dos 41,7 mil quilômetros previstos no Plano Nacional de Viação. O dado evidencia a possibilidade de ampliar o uso dos rios na logística nacional e consta no Estudo sobre Regulação e Governança da Navegação Interior Brasileira, elaborado pela Pezco Economics e promovido pela CNT, apresentado nesta quarta-feira (21).

Apesar de subutilizada, a navegação interior tem participação relevante no escoamento de mercadorias. Em 2025, o segmento movimentou 91,3 milhões de toneladas, um crescimento de 19,7% em relação ao ano anterior. Se analisada também a parcela da cabotagem realizada em vias interiores, o volume chega a aproximadamente 116 milhões de toneladas, de acordo com a Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários).

O levantamento também identifica entraves que limitam a expansão do transporte hidroviário, como a fragmentação da governança, a insegurança regulatória, as deficiências de infraestrutura e as dificuldades de fontes de recursos. A análise aponta que o desafio não se resume à existência de rios navegáveis: é necessário criar condições para que as operações tenham continuidade e previsibilidade.

Para o presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, o desenvolvimento da navegação interior deve fazer parte de uma estratégia de longo prazo para a logística brasileira. “O país tem um potencial hidroviário expressivo, mas aproveitar essa capacidade exige planejamento, infraestrutura adequada e segurança regulatória. Avançar nesses pontos é imprescindível para integrar melhor o sistema de transporte, ampliar a eficiência logística e contribuir para a competitividade da economia brasileira”, afirma.

Estudo propõe agenda de desenvolvimento até 2046

Diante dos gargalos, o trabalho apresenta uma agenda de iniciativas sugeridas organizada em medidas de curto, médio e longo prazos, com horizonte estratégico até 2046. No transporte de cargas, as propostas estão distribuídas em seis eixos: visão estratégica das hidrovias; governança e segurança regulatória; infraestrutura; mão de obra e capacitação; segurança; e financiamento.

Entre as medidas recomendadas, estão a criação de uma instância nacional de coordenação da política hidroviária, a elaboração de um Plano Setorial Hidroviário e o fortalecimento de ações de dragagem e manutenção das vias navegáveis. O documento também defende assegurar a continuidade do Proeclusas (Programa de Operação e Manutenção de Eclusas), planejar intervenções de forma integrada por corredores logísticos e aperfeiçoar mecanismos de custeio, inclusive por meio de concessões.

A ideia é que as decisões sobre investimentos considerem a demanda de transporte, as condições de navegação, os acessos terrestres, os terminais disponíveis e os custos de implantação e manutenção. Dessa forma, as hidrovias poderão ser avaliadas com as demais alternativas de transporte, conforme as características de cada rota logística.

Os impactos das variações de navegabilidade ficaram claros durante a seca de 2023 e 2024 na região amazônica. De acordo com a publicação, cerca de 90% das embarcações no Amazonas operaram sob restrições de navegação naquele período. No corredor entre Porto Velho (RO) e Itacoatiara (AM), o tempo de viagem passou de oito para 20 dias, enquanto a capacidade de transporte foi reduzida em 60%. Os custos de frete aumentaram em até 150%. As consequências também chegaram ao abastecimento: 23 municípios amazonenses tiveram o fornecimento de combustíveis comprometido por interrupções no transporte fluvial.

Transporte de passageiros também está no diagnóstico

A partir de informações da Antaq, o Estudo mostra que a navegação interior atende a 21,2 milhões de passageiros por ano. Em 49 municípios, o transporte hidroviário responde por 100% dos deslocamentos considerados no levantamento, o que reforça a importância dos rios para a mobilidade de populações em determinadas localidades.

Nesse segmento, o documento identifica desafios como a falta de dados estruturados, a informalidade, a insuficiência de infraestrutura e os obstáculos de financiamento. Entre as soluções indicadas, estão a regularização gradual dos operadores, o aprimoramento dos processos de autorização, a melhoria dos terminais e das estruturas de embarque e desembarque e o fortalecimento da segurança operacional.

O Estudo sobre Regulação e Governança da Navegação Interior Brasileira busca subsidiar o aprimoramento das políticas públicas e do ambiente regulatório da navegação interior, contribuindo para uma logística mais articulada e para a exploração do potencial hidroviário brasileiro. A agenda defendida leva em conta que o avanço do setor depende de ações coordenadas, continuidade dos investimentos e planejamento capaz de transformar a riqueza natural dos rios em capacidade efetiva de transporte.

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